9 de jul. de 2021
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A Boca Maldita toma café
Conheça o café que acompanhou as discussões políticas mais importantes desde a década de 60 em Curitiba.

Andando pela Av. XV de Novembro, bem no finalzinho, perto da Praça General Osório, fica a Boca Maldita. A grande atração que a deixou conhecida são as pessoas. Os jovens da década de 60 estacionavam seus Itamaratys na avenida e discutiam o Golpe de 1964 acompanhados por uma xícara de café.

Uma visita ao Café Avenida
Se sentarmos algum dia na mesa de canto do Café e ficarmos espiando a conversa dos outros, descobriremos o porquê de sua fama. Os seus frequentadores têm mais de 50 anos de casa e lembram das histórias de mocidade com brilho nos olhos. Eles já passaram pelo “50 anos em 5”, discutiram sobre a Ditadura Militar, libertaram-se com Tropicalismo e o “Desbunde”, exigiram as “Diretas já!” e, agora, falam das novas gerações.
Para Adélio R. Borges, cliente de décadas do Café Avenida, este sempre foi um espaço de boca aberta e sem censura: “Aqui tem frequentador de todo tipo; por exemplo, políticos da esquerda, de centro, aqueles que defendem a política neoliberal, a ditadura. Então, aqui é um lugar onde se discute de tudo, inclusive o futebol”, termina a frase rindo.

A grande transformação urbana
De acordo com o proprietário do Café, Marco Marcon, o estabelecimento acompanhou as mudanças culturais e físicas da cidade junto com seus frequentadores. O prédio em que se encontra é o Edifício Tijucas, o primeiro arranha-céu de Curitiba com seus 31 andares, inaugurado em 1958, colocando a cidade em um patamar modernista.
A Rua das Flores já era parte central da cidade, agora, consolidava-se, também, como a Cinelândia de Curitiba, com o Cine Avenida, Cine Ópera e outros, que uniram a juventude nos finais de semana, como relembra “Pita Braga”, assim chamado por todos: “As famílias vinham todos os sábados e domingos para cá. Aqui tinham vários cafés e cinemas; a gente costumava tomar sorvete dentro dos carros estacionados na avenida e comer bombas da Confeitaria da Família.”

Cultura em efervescência
Quando dizem que “a juventude tem a força da mudança” não erram. A partir da década de 60, os jovens “organizaram o movimento e orientaram o carnaval” e fizeram o que bem entenderam. O Tropicalismo e a Art pop atingiram a cultura vigente e fortaleceram a criatividade da juventude dentro da Boca. As roupas mudaram, as lutas sociais se desenvolveram e a Avenida foi fidelizada como o local das nascentes - tudo começava lá.
Os jovens discutiam o futuro do país ao som da Ditadura Militar e, de acordo com Marcos Marcon, proprietário, os frequentadores nunca foram calados - ao que tudo indica, o lugar possuía uma redoma de vidro: “Não se tem notícia de nenhuma prisão aqui na Boca, nem mesmo na própria Ditadura Militar. Acho que isso consolida essa parte da cidade como lugar para discussões.”

Espaço de discussão
Levando em conta, a característica principal do espaço, democracia, a Boca já abraçou todo tipo de grito. Em 1953, Getúlio Vargas, dessa vez eleito por voto popular, discursava na sacada do antigo Braz Hotel para os seus eleitores. Já, em 1984, da rua Voluntários da Pátria até a Ébano Pereira, só se via gente exigindo eleições diretas para a presidência. Do alto de um palanque na Boca Maldita, o senador da época, Álvaro Dias, que era presidente do PMDB, José Rocha, governador da época pelo PMDB, e outros representantes políticos deram voz à luta popular das “Diretas, Já!”.

Cavaleiros da Boca e a Boca Rouge
Um espaço de fala tão amplo assim, só poderia ser marcado, também, pela luta das mulheres. Desde o nascimento da Boca, em 1956, a presença masculina era majoritária pela cultura da época. E logo, isso se tornou motivo de orgulho para que criassem a Confraria “Cavaleiros da Boca Maldita de Curitiba” em 1957. O seu lema era “Não ouço, não falo, não vejo”, mas acabou sendo “Não ouço as mulheres, não falo com as mulheres, não quero vê-las aqui”.

Porém, na década de 1980, já com as transformações sociais em furor, houve um movimento das mulheres, organizado pela ex-vereadora, Rosa Chiamulera. Elas iriam ocupar o principal espaço de discussão política de Curitiba, mesmo tendo que bater de frente com a Confraria.
Surge assim, a Boca Rouge, ou Boca vermelha. Elas reinvindicavam sua presença dentro da Boca, como direito à cidadania, e apareciam nos cafés para discutirem política junto com os homens. Tendo, esse movimento, balançado as estruturas do machismo, na década de 1990, quando Curitiba fazia 300 anos, a Boca Rouge ganha uma placa no Café Avenida, que oficializa a liberdade de todos naquele espaço no mesmo ano em que a placa do “Cavaleiros” foi pregada na frente do Café Boca Maldita.
O espaço só se tornou livre mesmo quando a placa foi retirada pela prefeitura, em 2013, o que simbolizou um enorme avanço na democratização do acesso às pautas políticas da Boca.

A nova geração
Pita Braga conta que a “Turma da Avenida”, grupo de 56 amigos com mais de 53 anos de história, continua se reunindo no Café Avenida para debater sobre política e qualquer outro assunto que vier à cabeça. Na época dele, os cafés eram cheios de “coroas”, hoje, ele é um coroa e está nos cafés, comenta com bom humor.
Um dos desejos de Marcon, proprietário do Café Avenida, é que os novos jovens participem das discussões políticas da Boca: “A geração de 50/60 já deixou a sua marca, agora os jovens precisam alimentar a história do Café para que ele continue sendo esse espaço democrático da política curitibana”.
E a nova geração politizada parece conquistar seu espaço. Os movimentos sociais sempre chegam à Boca, como “Mulheres contra Bolsonaro”, assim como as manifestações do “PT Não” e a dos “Estudantes contra os cortes da Capes”, todos em 2018. A Boca Maldita continua viva e os jovens também deixam suas marcas com um bom rastro de café.

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